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29,15% do território da Capital é de área verde

 originalmente publicado em: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1203738

Mapeamento Arbóreo de Fortaleza é concluído e revela que há má distribuição desta cobertura em Fortaleza
Além de proporcionar conforto climático, as árvores contribuem para amenizar a poluição sonora, visual e do ar. Nas grandes metrópoles, no entanto, essas áreas verdes são cada vez mais restritas. Elas perdem espaço, em uma velocidade nunca antes vista, para ocupações e, principalmente, para a especulação imobiliária. Em Fortaleza, somente 29,15% do território é formado por áreas verdes.


A Avenida Dom Manuel, no Centro da cidade, é considerada retrato do que seria ideal em termos de arborização, diferentemente de vias como Bezerra de Menezes e Santos Dumont, que perderam essa característica Foto: Fabiane de Paula

É o que aponta o Mapeamento Arbóreo de Fortaleza, estudo divulgado ontem, pela Secretaria do Meio Ambiente e Controle Urbano (Semam), realizado pela Universidade Estadual do Ceará (Uece). Por ser inédita, a pesquisa não tem como mensurar o quanto de área verde a Capital perdeu nos últimos anos.

Por outro lado, o nível de precisão das informações do estudo permite aos gestores saber os bairros com maior e menor cobertura arbórea, assim como as potenciais áreas de recuperação. A partir dos dados, políticas públicas deverão ser criadas no sentido de preservar a área verde que ainda resta na cidade.

Lúcia Brito, professora do Departamento de Geografia da Uece e coordenadora da pesquisa, comenta que 29,15% é um percentual de área verde considerável para uma área urbana.

Contudo, a especialista frisa que existe, em Fortaleza, uma má distribuição em relação a essa cobertura. "Elas estão muito relacionadas aos dois estuários que fazem parte do município, que são o Cocó e o Rio Ceará", esclarece.

Metodologia

O objetivo do estudo é levantar informações dos ecossistemas, áreas verdes e da cobertura florestal da cidade. Para isso a Prefeitura cedeu um banco de dados com imagens de 2010. As fotos foram analisadas, redimensionadas e georreferenciadas por bairro e regional, analisando terrenos públicos e privados.

Com 67%, o bairro Edson Queiroz é o que possui maior cobertura arbórea da Capital, levando em conta a área territorial, seguido da Sabiaguaba (50%), Lagoa Redonda (55%), Jangurussu (46%), Paupina (64%) e Pedras (73%). Por outro lado, o bairro com menor percentual de área verde é o Jardim América, com apenas 1%. Logo depois, vem o Bom Futuro (9%), Couto Fernandes (11%), Pirambu (7%), Cidade 2000 (10%) e Panamericano (10%).

Dentre os fatores que contribuem para tornar o Jardim América o bairro com menor índice de área verde da cidade, explica o ambientalista João Saraiva, está o grande processo de ocupação que o bairro sofreu nos últimos anos. "Esse estudo vai proporcionar o cuidado que se deve ter para que as áreas onde ainda existe verde não cheguem ao colapso, como já ocorre em vários bairros de Fortaleza", alerta.

A promotora de Justiça Vanja Fontenele destaca que o estudo é importante para a preservação do meio ambiente e para políticas públicas que visem a expansão da área verde. "O mapeamento arbóreo tem esse papel importante de determinar, por exemplo, quais são as possibilidades de localização de novos empreendimentos", diz.

LUANA LIMAREPÓRTER

Ruídos intensos causam mais de 30% das perdas de audição


DA REDAÇÃO DO O ESTADO ONLINE

Fonte: AB

No Dia Nacional de Combate e Prevenção à Surdez, lembrado hoje (10), a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cervicofacial (Aborl-CCF) alerta que até 35% das perdas de audição ocorrem por causa da exposição aos sons intensos, como fones de ouvido em aparelhos de MP3 e ruídos no ambiente de trabalho. De acordo com a associação, a surdez causada pela exposição aos sons intensos vai acumulando ao longo dos anos.
O presidente da Associação de Otorrinolaringologia do Distrito Federal, Diderot Parreira, alerta que a prevenção é “a melhor arma para a gente lutar contra a perda auditiva”. “A audição perdida não volta mais. Prevenir é a melhor opção,” recomenda Parreira.
Parreira aponta qual o volume ideal para ouvir música: “O volume adequado [no uso de fones de ouvido] é aquele que enquanto você está escutando uma música, uma notícia, você também escuta outra pessoa falando com você normalmente.”
“Provavelmente, vamos ter mais velhinhos com problemas de audição na nossa geração do que na anterior, dos nossos pais, justamente por causa da exposição a ruídos intensos,” ressalta Parreira.
O uso de fones que são inseridos no canal auditivo levam o som diretamente à membrana timpânica, sem nenhuma barreira de proteção às delicadas estruturas que compõem a orelha interna. Os fones tipo concha são os mais indicados pelos médicos, desde usados em uma intensidade sonora adequada, informa a associação.
Com relação aos ruídos no trabalho, os trabalhadores da construção civil são os que correm maior risco de ter a audição comprometida. Os profissionais que atuam em aeroportos e, em alguns casos, motoristas de ônibus também são afetados. “Na nossa cidade [Brasília], os motores dos ônibus ficam na frente, próximo ao motorista, do lado direito dele. Imagina, ele fica horas e horas com aquele ruído, sem proteção nenhuma, já que no trânsito não se pode usar. Ele vai ter essa perda de audição”, explica Parreira.
Para o presidente, uma boa opção para proteger a audição desses profissionais é retirar o motor dos ônibus do lado do motorista, como já é feito em algumas cidades brasileiras com leis nesse sentido.
A poluição sonora também pode afetar a audição. De acordo com a associação, ruídos a partir de 85 decibéis (nível de pressão sonora), intensidade registrada em uma avenida movimentada, são prejudiciais. A orientação é não permanecer por mais de oito horas em ambientes com sons em torno de 85 decibéis. A partir de 95 decibéis, a permanência recomendada cai para duas horas, por exemplo, ambiente onde alguém está tocando piano bem alto.
Parreira lembra que os ruídos do dia a dia também podem alterar o lado emocional das pessoas. “A parte emotiva da pessoa vai ficar alterada. Chegando em casa, isso vai aflorar um pouquinho e pode fazer a pessoa ter diminuição de concentração, nervosismo, estresse, dificuldade pra dormir. Tudo isso pode estar relacionado à poluição sonora que a gente vive no dia a dia”.

Os trilhos do Mucuripe


 

Lembro de quando vivíamos na Varjota, e um dia acordei surpreso com o som
de uma buzina contínua no meio da madrugada. Esse som tinha tantas camadas
que, a princípio, eu não sabia muito bem identificar com clareza. Sabia que
não era de automóvel, porque o avançado da noite não permitia um som tão
forte e prolongado cortando nossos silêncios. Percebi naquele fenômeno
sonoro uma distante ponta aguda que reverberava partindo para o grave;
podia ser bem aquele negócio de efeito Doppler que a gente estuda na escola,
mas nem sempre entende direito no cotidiano. 

Curioso, passei pelo corredor do apartamento, com intenção de ouvir melhor
antes de ir para a cozinha beber um copo d’água. Parei na porta do último
quarto para falar baixinho com minha mãe: - Que som é esse? É o som de
um trem, meu filho, respondeu sonolenta, e ele vai pela Via Expressa rumo
ao Porto do Mucuripe.

Ela pouco tempo depois de me dizer aquilo deve ter adormecido, mas o impacto
daquela resposta me deixou aceso, fascinado. Tudo fez total sentido, quando
liguei o ruído metálico dos trilhos à etérea buzina. Olhei pela janela e vi um
conjunto interminável de vagões pesados, seguindo com pressa para o ponto
final onde as velas dos jangadeiros saem para começar a pescaria noturna.
Fiquei na dúvida por um instante se morar perto da zona de passagem do trem
era incômodo, um distúrbio de poluição sonora, ou se era mesmo um privilégio
estético, do acesso auditivo a um som que nem sabemos se a próxima geração
irá (re)conhecer.

Minha família fixou residência em Fortaleza no final do ano de 2006. Migramos
de Brasília, capital que viu crescer a mim, a meu irmão e nascer o nosso caçula.
O metrô só chegou no começo dos anos 2000. Por ser debaixo da terra e no meio
do Plano Piloto, lá a gente não ouvia tão próximo como no quarteirão de casa.
A descoberta do som desse trem cargueiro de superfície me levou a um passado
distante, a um estímulo que antes meus ouvidos não haviam experimentado.
Despertou em mim informações de uma memória ancestral, referência simbólica
presente na linhagem familiar materna.


Outro dia li em um trecho do livro Bagagem,
da poetisa Adélia Prado, o seguinte: "Um
trem-de-ferro é uma coisa mecânica, / mas
atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida, / virou só sentimento.”
Coincidência ou não, o que diz a escritora mineira
de Divinópolis atinge a gente de forma profunda,
porque a cidade dela fica a apenas duas horas
de distância da terra natal da minha mãe, Piumhi
(pium-hi, “mosca d’água” em tupi guarani, mas que se lê Piuí, justamente a
onomatopeia do barulho da buzina do trem). 


Se fosse locomotiva, o rio São Francisco começaria o percurso ali naquela região,
na estação da Serra da Canastra. Desceria da nascente pela gelada Casca Danta,
a primeira cachoeira, e seguiria viagem dos mananciais das alterosas de Minas
Gerais até o Atlântico, passando por boa parte do Nordeste brasileiro. Daqui a
algum tempo, transposto com a expansão dos trilhos aquáticos, o Velho Chico vai
encontrar finalmente as águas sertanejas do Ceará, para onde viemos como
tantos mineiros, buscando o mar, a brisa e a qualidade de vida do litoral.

A partir daquela madrugada, ouvir o trem se tornou para nós como um vínculo
sonoro da nossa condição de andarilhos. O som trazia a lembrança de quem parte
de um lugar longínquo com sonhos e um sentido de pertencimento, de raízes, um
traço típico do imaginário daqueles que vêm de Minas. Uma tia minha, que é o
museu vivo das histórias do clã dos Leonel, conta que meu bisavô foi tropeiro
levando mercadorias nas tropas de mulas por léguas a perder de vista. Era de
um espírito viajante que passou para as gerações seguintes, para o meu avô
fazendeiro, que tentou a sorte nos garimpos do interior do Pará. Os assobios desse
trem, com o tempo, tornaram-se familiares, talvez comuns como o zumbido da
geladeira, porém um elemento muito mais afetivo e poético da paisagem sonora. 


Marco Leonel Fukuda
Músico e comunicador

originalmente publicado em: